quinta-feira, 31 de julho de 2008

De Beijing a Hong Kong e Macau



Beijing
Bom, acabei ficando em Beijing durante um bom tempo, uns 10 dias. Maxime, meu amigo francês, está morando com a namorada num apartamentinho térreo num prédio bem antigo e eu fiquei dormindo no sofá deles por quatro dias. Depois resolvi sair e ir para um hostel porque percebi que já estava invadindo um pouco a privacidade deles. Maxime é super gente boa e não falou nada para eu sair, eu é que lancei para ele a questão e entendi que era melhor eu não ficar mais tempo do que fiquei.


Nos dias em que fiquei em Beijing esperando pelo Alan, não fiz nada de turismo, quer dizer, não fui para lugares históricos nem nada assim, pois tem que pagar para tudo, o Alan ia querer ir para alguns desses lugares de qualquer forma e eu poderia ir com ele. Fiquei indo para bairros da cidade que achei que iam ser interessantes de passear e conhecer, foi bem bacana de ver um pouco do dia-a-dia da capital chinesa.

O Alan chegou dia 19, sábado, e eu fui pegá-lo no aeroporto, foi muito emocionante reencontrar ele depois de um ano sem vê-lo. Depois de duas horas juntos foi como se nunca tivéssemos nos separado, fazendo piadas sem graça e conversando sobre besteiras. Nos falávamos muito pela internet e pelo telefone, então não eram tantas coisas para contar. Levei ele para o hostel onde eu tinha me hospedado no centro da cidade, bem atrás da praça da Paz Celestial, e me mudei de quarto para poder estar no mesmo que ele. Depois de deixar as malas e fazer um H por ali, como se trata de um arquiteto que chegava à China moderna, levei ele para ver uns prédios novos/famosos/interessantes pela cidade. Nessa noite, ficamos amigos de duas francesas que estavam hospedadas no mesmo hostel e junto com elas fizemos várias coisas nos dias seguintes. Para começar, no dia seguinte, fomos na cidade proibida, o lugar mais famoso de Beijing, que era a zona do palácio dos imperadores da dinastia Ming, na segunda metade do segundo milênio e estava perto da gente, de frente à praça da paz celestial.


Hoje em dia milhares de turistas visitam esse lugar mesmo debaixo de um sol quente pra burro, a grande maioria chineses. É toda uma área de palácios, jardins e afins destinada ao imperador e toda a comunidade de pessoas que convivem com ele.

Depois, de tarde, fomos dar uma volta pelo distrito de arte da capital chinesa, conhecida como área 798. Eu já tinha ido duas vezes lá antes do Alan chegar e tinha adorado. Uma zona fechada de uns 5 por 5 quarteirões onde não param de surgir galerias de arte contemporânea, ateliês de pintores, escultores, fotógrafos, etc.



O lugar ferve de arte contemporânea, cheio de gringos indo olhar, comprar, fazer parcerias para exposições nos seus países de origem e tal. Fiquei com vontade de viver numa cidade que tenha um espaço

No dia seguinte fomos para a grande muralha, sem palavras para decrever.


A parte da muralha onde fomos era relativamente vazia, provavelmente por ter partes bem íngremes e muitas vezes com as escadarias transformadas em uma ladeira de pedras que faziam as vezes de degraus há muito tempo atrás. A vista da natureza da região é maravilhosa, o sol estava lindo, o exercício físico fazia a gente suar e sentir alívio a cada topo de escada em que chegávamos.




Esta eu tirei na volta para a cidade. Uma hora e meia de viagem até Beijing.



No terceiro dia, já sem as amigas da França, fomos subir na torre da CCTv, a rede de televisão estatal do governo Chinês. A neblina estava muito forte e não dava para ver muito bem além de
alguns quarteirões, mas valeu a pena, eu adoro subir em lugares altos e me sentir no céu, acima da cidade.


Numa das noites com as meninas, paramos para brincar com os aparelhos para exercícios físicos que podem ser encontrados por qualquer calçada ou praça da China, geralmente utilizados por velhinhos que acordam às 5 horas da manhã.



Meu visto ia vencer em menos de dez dias e tínhamos que correr um pouco para chegar na fronteira em tempo, então pegamos um trem para Shanghai nessa noite e chegamos na manhã seguinte.
Shanghai era outro lugar que eu já conhecia mas que o Alan precisava ir ver. Eu já tinha visto muita coisa na China e tinha decidido que só iria pros lugares que ele quisesse conhecer, mesmo que eu fosse repetir meus destinos.


Shanghai


Chegamos de manhã cedo sem ter reservado nenhum lugar para ficar e acabamos indo para um hostel qualquer que conseguimos achar na internet. Era bem localizado mas era uma piada: tinha só 3 pessoas trabalhando no prédio inteiro, que devia ter uns 3 andares; o elevador só era ligado quando alguém queria subir malas para os quartos; os lockers podiam ser abertos passando um cartão qualquer pela fechadura, o que não é legal se você quer deixar o computador e dinheiro dentro. Logo depois de deixar nossas coisas lá e tomar um banho, fomos direto reservar outro lugar melhor para os próximos dias. Nos mudamos no dia seguinte para um hostel onde pagamos um pouco mais barato e era ainda filiado ao Youth Hostelling International, muito melhor, sem comparação.



Em Shanghai andamos pelos lugares que eu já conhecia, como o Bund, a área na beira do rio onde os ingleses construíram seus escritórios na época em que tinham direitos sobre um pedaço da cidade, andamos pelo bairro francês, e atravessamos para o outro lado do rio, onde estão sendo erguidos os arranha-céus.


Essa é toda uma área completamente nova da cidade, com as ruas bem vazias em comparação com o outro lado do rio, uma paisagem bem diferente, onde predomina uma coisa mais primeiro mundista, meio tecnológico, cheio de vidro e metal, concreto cinza, canteiros de obras e carros importados, muitas vezes com estrangeiros dentro.

Perto do centro, na parte que pertencia à França antigamente, está esta rua cheia de lojas de grife européias, starbucks e afins. Acho que falei bastante sobre Shanghai da outra vez que vim para cá, no natal de 2007. Quem quiser ler vai aqui ó: Shanghai 2007.



Estes são os dois prédios mais altos da cidade, sendo que o da direita é o segundo mais alto do mundo e o da esquerda está entre os dez mais. Eu subi com o Alan para o alto desse último para tomar um drinque no bar e dar uma olhada na vista. Essa é uma coisa que temos em comum, gostamos de subir nesses picos muito altos para ver tudo lá de cima, tentar entender a paisagem da cidade e pegar alguns detalhes impossíveis de serem vistos da superfície das ruas.


Passamos somente alguns dias em Shanghai e pegamos mais um trem, indo para o sul, até Yangshuo, lugar que eu tinha ido no final da minha viagem de inverno (quem quiser ler o post da viagem de inverno, clica aqui)

Yangshuo
Para que eu chegasse na fronteira no dia de vencimento do meu visto, teríamos que ficar só uma noite em Yangshuo, mas decidimos ficar duas e arcar com a provável multa de 50 euros que um dia de atraso causaria. Valeu a pena de fato. O tempo estava ótimo e fomos fazer um passeio de barco e andar de bicicleta pela região.



Eu já tinha viajado muito pela China e já tinha tido muitas experiências incríveis de lugares e pessoas que ia conhecendo usando meu parco mandarim. Queria que o Alan tivesse um pouco disso também e Yangshuo cumpriu com as expectativas de mostrar paisagens diferentes e maravilhosas do campo e dos camponeses, gente simples que contrasta com o povo cosmopolita das duas cidades grandes que tínhamos visto nas semanas anteriores. Consegui assim dar uma boa visão do país para o meu caro amigo viajante, uma pequena seleção de lugares que conseguiu dar em 12 dias uma boa imagem do conjunto.

Estas crianças estavam brincando de esconde-esconde num lugar onde paramos para comprar uma bebida gelada e interagir um pouco com os moradores.

Uma das partes mais legais da viagem até agora foi o banho de rio que tomamos neste pico que eu lembrava, não sei como, de seis meses atrás, quando eu o descobri junto com os franceses.

Esse era o meu último dia na China. Pensei a respeito disso por um momento e escrevi algumas linhas num caderno, sentado numa pedra de frente para o rio. Alguma hora pretendo colocar um post aqui no blog com alguns pensamentos sobre o ano que passei na China.

A viagem continuava naquela noite. Seguimos até a fronteira num ônibus feito de uma única cabine com três fileiras de dois andares de camas. Não deu para dormir muito bem, a gente obviamente não cabia: os pés ficavam debaixo da cabeça do cara da frente, numa cavidade debaixo do travesseiro e cabeça bem levantada para caberem os pés do chinês de trás. Sujeitos altos como nós sofrem para viajar na China.

O destino final desse ônibus era Shenzhen, cidade que faz fronteira com Hong Kong. Da estação final, rachamos um táxi até a zona fronteiriça com duas meninas que vieram junto com a gente no ônibus. Hong Kong faz parte da China hoje em dia mas, assim como Macau, é uma área econômica especial que funciona quase como um país diferente, só que é governada por Beijing. Há um enorme complexo onde está a área de transição da China propriamente dita para Hong Kong. Tem uma estação de trem e uma de ônibus do lado chinês e uma estação final do metrô do lado de Hong Kong. No meio está todo o esquema de imigração, polícia, etc. Eu estava esperando ter de pagar os 50 euros da multa por estar saindo do país com um dia de atraso. Quando fui passar pela polícia, me pararam e me levaram para um lugar meio separado. Fiquei esperando até que veio uma mulher me fazer umas perguntas, muito educadamente por sinal. Eu expliquei que era professor por lá e que estava viajando, que me atrasei, só isso. Ela me deu só uma advertência dizendo que da próxima vez eu teria que pagar a multa e me fez assinar um documento, acabei não gastando nada.

Hongkong
Íamos passar só uma noite em Hong Kong, tínhamos decidido. Estávamos com uma passagem para Bangkok marcada para dali a quatro dias, saindo do aeroporto de Macau. Compramos essa passagem porque era a mais barata e decidimos passar por Hong Kong só para dar uma olhada, pois podíamos ter ido direto para Macau.

Hong Kong é uma cidade incrível, uma metrópole muito cosmopolita, desenvolvida e rica, habitada por chineses que falam cantonês e um pouco de inglês e mandarim (a língua oficial da china, que eu consigo falar um pouco). Só para lembrar, essa cidade era uma colônia britânica que foi devolvida à China há uns dez anos atrás. Os carros vão pelo lado esquerdo da rua, as tomadas são iguais às da Inglaterra, as pessoas são muito educadas em geral, buzinam quase nada (comparando com os motoristas chineses que buzinam mais do que giram o volante).

Nós ficamos na ilha de Hong Kong propriamente dita, a área mais antiga da cidade, a primeira parte a cair na mão dos ingleses. Muitos arranha-céus perto do mar e ruas estreitas que os pedestres tem que atravessar por passarelas que se multiplicam no ar e se conectam umas às outras e também aos Shopping Centers cheios de lojas de grife.

Esta foto eu tirei logo antes de uma chuva que caiu no nosso segundo dia lá. Estávamos do outro lado do canal, numa parte continental da cidade, conhecida como Kowloon. O prédio ao fundo é o mais alto da região e está entre os dez mais do mundo.

Uma das características de Hong Kong são os "trams", bondes, que lá são super estreitos e têm dois andares. Pegamos uma vez só, para ter um gostinho do que era. Estávamos economizando e andando muito a pé porque tudo, inclusive o transporte público, era muito caro. A economia do lugar é muito forte, como a de um país europeu, e os preços são quase iguais.


Uma das coisas que mais gostei foi o clima de cidade dos anos 50/60 que existe nas partes mais centrais. Me lembrou um pouco Buenos Aires, cidade onde mora a família da minha mãe, e um pouco São Paulo também.



Para ir para Macau, o principal transporte é um ferry boat que leva menos de uma hora para atravessar a baía. Tem barcos a cada 15 minutos, o dia inteiro. Pegamos um de noite, lá pelas 8 horas.

Macau
Se você tirasse os olhos puxados das ruas e os cartazes cheios de caracteres das lojas, as pessoas achariam que Macau fica na Bahia ou coisa parecida. Ex-colônia portuguesa, a cidade, bem pequena, tem uma paisagem de ruas e prédios extremamente familiar para nós brasileiros. Quando passamos pela imigração já tivemos um resumo do que ia ser esse lugar: as placas todas estavam em inglês, chinês e português, as três línguas oficiais. Era ótimo poder ler as explicações nos pontos turísticos e museus em português. Parece que as leis de Macau estão escritas na nossa língua também.
As calçadas são feitas de mosaicos de pedra portuguesa, há construções coloniais e neo-coloniais por todo o canto, pode-se comprar um pastelzinho de belém em qualquer esquina e todas as ruas tem nomes em português e em cantonês. Hoje em dia a cidade está cheia de cassinos, legais ali, e, todos os fins de semana, milhares de moradores de Hong Kong pegam o barco para ir jogar e beber.

Esse é o centro da cidade, o Largo do Senado. Na foto de baixo está o prédio onde ficamos hospedados, o de cor rosa. É o apartamento de uma moça que nos recebeu pelo Couchsurfing.com. Ela era de Cingapura e passou parte da infância na Nova Zelândia. Agora está em Macau trabalhando como jornalista.


A rua dela chamava Almeida Ribeiro. O engraçado é que, apesar do português ser ainda uma das línguas oficiais da pequena cidade, quase ninguém sabe falar e nem sequer pronunciar o nome em português das ruas. O taxista que nos levou da estação do ferry até o apartamento não conseguia entender o nome que eu lhe dizia e eu tive que tentar fazer uma pronúncia meio chinesa das palavras e ele finalmente acabou entendendo.




A nossa anfitriã foi muito gente boa. Tinha um quarto extra no apê dela porque a pessoa que dividia com ela tinha se mudado fazia pouco tempo. Nós ficamos nesse quarto que tinha até banheira! Ela deu uma chave para a gente, o que nos deixou mais independentes, levou a gente no sábado de noite para um cassino onde bebemos vodka de uma garrafa que ela já tinha no bar. No dia seguinte nos levou para comer junto com ela e uma amiga num restaurante de comida espanhola que a tinha convidado para fazer uma crítica gastronômica, não gastamos um centavo e comemos de tudo, paella, frutos do mar, pão com manteiga (raridade na China).


Nos dias que ficamos em Macau, basicamente andamos pela cidade, obeservando as ruas e as construções antigas, reparando nas semelhanças com as partes coloniais das cidades brasileiras.

A economia local não é tão forte como a de Hong Kong mas, ainda assim, os preços são mais altos do que na China. As partes mais novas, principalmente em volta dos enormes cassinos, a maioria filiais de cassinos gringos, são super bem conservadas. Bairros mais perto do porto são mais pobres e esquecidos.



Num final de tarde, fomos ver o pôr-do-sol numa praia ao sul da cidade, numa das duas ilhas de Macau, conectadas à parte principal por enormes pontes.



Termino de escrever este blog na Ilha de Koh Phangan, no sul da Tailândia, onde estou descansando e fazendo balada há uma semana. O próximo post vai ser sobre este país muito doido, extremamente turístico e que é uma mistura de ocidente com oriente como provavelmente não existe em outros lugares do mundo. Aguardem!

Quem leu faça o favor de escrever pelo menos alguma coisinha aqui nos comentários!

Beijos e abraços cheios de saudades!

domingo, 13 de julho de 2008

Costa leste da China, o recomeço.

Estou em Beijing (Pequim). São quinze para as oito da manhã, eu estou no bar do Youth Hostel em frente à estação de trem, de onde acabei de sair. Vou ficar na casa do meu amigo francês que conheci na viagem que fiz durante o inverno aqui na China, Maxime. Ele está morando num lugar novo, que eu ainda não conheço, e, como é domingo, ainda não acordou para me dizer como chegar lá. Aqui sentado então espero ele acabar o seu sono e conto para vocês como foram estes primeiros 10 dias de viagem.


Bom, peguei meu trem para Shanghai. Meu plano era de Shanghai ir direto para a província vizinha logo ao sul, onde eu queria visitar alguns lugares. A caminho, porém, eu decidi descer umas duas horas antes, em Nanjing, cidade que eu tinha curiosidade de conhecer e de onde ficaria mais fácil de ir para onde eu queria. Nanjing já foi capital da China (Jing significa capital e Nan significa sul. Nanjing: capital do sul. Bei é norte, beijing, então, capital do norte.) e hoje é apenas mais uma cidade grande, como dezenas de outras. Fiquei duas noites lá e o calor estava insuportável, muito úmido, uma constante até agora nos lugares que fui. Vi algumas coisas interessantes por lá mesmo assim: fui visitar o memorial do massacre de Nanjing, um museu com toda a história do incidente, depoimentos dos sobreviventes, fotos, vídeos, etc. O caso não é muito conhecido no Brasil: em 1937 os japoneses, que estavam invadindo a China depois da primeira guerra mundial, entraram na cidade de Nanjing (na época, Nanking, outra forma de transliteração) e assassinaram mais de 300 mil pessoas a sangue frio, a maioria civis, estuprando milhares de mulheres, roubando tudo de valor das casas, e até hoje o governo do Japão não reconhece o crime.



O lugar é bem chocante, lembra bastante o museu do holocausto de Jerusalém.

Outro lugar que eu fui ver foi o mausoléu do Sun Yat-sen, o cara que é considerado o pai da China moderna. Numa montanha saindo da cidade, fizeram uma construção enorme, com uma escadaria gigantesca para chegar até o prédio onde estão os restos mortais dele. Sun foi quem liderou a revolução nacionalista contra o último imperador chinês e os colonizadores europeus nos anos 10.


Ele não estava presente na batalha que tomou o poder, estava refugiado em Tóquio, mas era a grande cabeça de todo o projeto e lutou toda a sua vida pela independência chinesa. Aprendi bastante sobre a história chinesa visitando lugares assim, mas não vou ficar falando muito a respeito para não encher o saco de vocês. Quem quiser saber mais pode ir na Wikipedia.

Restaurante em Nanjing:


Depois de Nanjing peguei um ônibus para Huangshan, a montanha amarela, um lugar extremamente turístico, mas que valeu a pena por conta da beleza das paisagens que encontrei por lá. Imaginem aquelas pinturas chinesas que mostram umas montanhas com picos de pedra, nuvens passando entre eles e velhinhos meditando à sombra de pinheiros nas encostas. O maior símbolo deste tipo de concepção de paisagem na China é a Huangshan.


O lugar era visitado por poetas, pintores, imperadores e pessoas com uma sensibilidade aguçada em busca de inspiração e fruição estética há mais de mil anos. É de fato impressionante, realmente percebe-se porque a cultura chinesa, desde há muitas centenas de anos, encerra as imagens destas montanhas em sua bagagem. Faz parte do inconsciente coletivo dos chineses. Como eu disse, o lugar é bem turístico e, como tal, aqui na China, recebe toda uma infraestrutura para abrigar os milhares de olhinhos puxados diários que escalam suas alturas. Esqueça os sapatos especiais de trekking ou coisas do gênero, eles fizeram uma escada que sobe do princípio ao fim, com bancos para descansar, lojinhas de água e comida e, no topo, toda uma mini vila com hotéis de luxo, restaurantes até caixa automático tem.
Quando eu cheguei no ponto final do ônibus que me levou até a região, subi numa van pra chegar no povoado que fica na base da montanha. O motorista, vendo que eu era gringo, me deixou em frente à um restaurante de um tal de Mr. Cheng, um chino que fala um bom inglês e usa isso pra fazer muitos clientes do exterior. Desci da van e ele já foi chegando, falando para eu entrar e sentar e sei lá mais o quê. Não gostei muito no começo porque não tinha pedido pra van me deixar ali e pressenti mais uma vez as mafiazinhas chinesas se articulando. Mas mesmo um pouco desconfiado fui ver o que o cara tinha pra oferecer. Ele me convenceu a reservar uma cama no topo da montanha no contato dele e comprar a passagem de ônibus do dia seguinte para fora da cidade, também com ele. Só me convenci a fazer tudo isso depois que, enquanto ele me enchia o saco pra burro (não tinha mais ninguém no restaurante), uma canadense entrou no lugar e confirmou que tinha feito o mesmo que ele estava me oferecendo e que tinha dado tudo certo. Ele guardava num quartinho as malas das pessoas que iam subir a montanha e ela estava de volta para pegar suas coisas a almoçar. Bom, começando pela entrada do parque que abriga as montanhas, tudo era um absurdo de caro por lá. Paguei 70 yuans pelo lugar onde dormi, uma cama num dormitório sem chuveiro nem nada, sendo que em Shanghai paga-se 50 por um hostel que te oferece muito mais coisa.


A subida é extenuante, são uns 1400 metros de altura. Escadas e mais escadas. Claro que eles fizeram uns teleféricos, mas não foi pra isso que eu fui. Eu até que aguentei bem, estava em forma por causa dos rolês de bike lá em Xi'an, e em três horas estava no topo. O mais legal lá em cima é ver o nascer do sol, como todo mundo fala para aqueles lados, então às 4:20 da madruga eu já estava de pé, indo por uma trilha até um ponto de observação do horizonte pro lado do nascente. De novo, indescritível. Por causa da altura, o calor do verão é neutralizado e antes do sol aparecer dá até para vestir um casaco, o que foi uma delícia, um alívio pra suadeira desta viagem no meio de julho.



Tudo que se vende lá em cima na lojas é trazido no lombo de chineses (que devem ganhar uma miséria para fazer isso). Então, quanto mais pesado o item, mais caro. Água era mais cara do que comida: 25 yuans por uma garrafa de 1,5L (num supermercado em Pequim custa 3 yuans). Na descida, com o sol já aparecido no céu, fui devagar, aproveitando ao máximo e fazendo trajetos mais compridos já que tinha muito tempo até às 4 da tarde, quando deveria estar de volta ao restaurante do Mr. Cheng lá embaixo na vila.

Acabado o passeio pelas alturas idílicas, peguei então o ônibus para Hangzhou, o próximo destino.



Hangzhou foi uma vez descrito por Marco Polo, o grande viajante do séc. XIV, como o lugar mais lindo da China. Hoje em dia já não é tudo isso, com muitos prédios enormes e, de novo, milhares (seriam milhões?) de turistas. O principal da cidade é o lago enorme em seu centro, o Xihu (lago oeste), que tem um monte de ilhas com jardins, algumas ligadas por pontes dessas chinesas, outras isoladas no meio da água, nas quais se chega com um barco. Fiquei só dois dias em Hangzhou, no primeiro passeando em volta do lago, sem entrar nos templos ou qualquer outra coisa que tivesse que pagar, para compensar os gastos da montanha, e no segundo fui até uma vila fora da cidade onde se produz o chá mais famoso da China, o chá verde Longjing.

Não tinha muito turista ali em Longjing, o que foi demais, e pude respirar um pouco de silêncio. Tinha uns locais que estavam na estrada oferecendo chá para você comprar. O chá do lugar é bem caro, fazendo jus ao fato de ser famoso num país onde o chá é tão bebido e seus consumidores são centenas de milhões. Não queria comprar mas convenci uma das mulheres à me levar à sua casa e me servir um copo do tal chá.


Era realmente muito bom (depois de um ano na China, eu já tomei mais chá do que já tomei na minha vida inteira e pude de fato apreciar o que ela me serviu). Acabei comprando um pote bem pequenino e depois fui dar uma andada pelas plantações.


O calor estava absurdo, mas eu queria ver as plantas de perto e absorver um pouco da paisagem pois não teria outra oportunidade. Na volta para a cidade, ainda parei no museu que o governo construiu sobre o chá e sua história, muito interessante, aprendi bastante e me apaixonei um pouco mais pelo chá verde, que já vinha tomando bem frequentemente nos últimos meses.

De volta à cidade, estação de trem de Hangzhou ao cair da tarde:



A outra cidade para onde fui antes de chegar aqui em Beijing fui Suzhou, não distante de Hangzhou.


Outra cidade descrita com elogios por Marco Polo, mas com canais que cortam a cidade em vez de um grande lago. Suzhou, ao contrário de Hangzhou, não recebeu o mesmo investimento pesado em sua infraestrutura nos últimos anos, então não está tão reformadinha e limpinha e conserva uma atmosfera mais antiga, mais gostosa na minha opinião. Tem menos turistas também.



Acabei ficando três noites lá, relaxando tanto quanto passeando, até porque o calor do meio da tarde era uma coisa assustadora, de você sair para fora do ar-condicionado e começar a suar quase que no mesmo instante. Meu computador suava que nem uma latinha de coca tirada da geladeira quando eu saía com ele do quarto. Fiquei bastante tempo morgando, sentado em alguma sombra ou dentro de algum lugar com ar-condicionado. Suzhou também é conhecida por seus jardins tradicionais chineses. Os mais famosos são os grandes e suntuosos que eram construídos para os imperadores e a nobreza do país. Este é o mais conhecido, onde também tinha um museu que explicava como se construía e quais eram os conceitos de concepção de um jardim desse estilo: beleza, harmonia, mistura de diferentes elementos da natureza em espaço reduzido, etc...


Um dos restaurantes onde almocei em Suzhou:


Como me consigo me comunicar com as pessoas na rua, consigo fazer mais fotos agora. Em Suzhou ia passeando pelas vielas que beiram os canais e encontrando cenas interessantes.


Em Suzhou encontrei um bar bem bacana, com uma banda das Filipinas que tocava muito bem músicas do mundo inteiro para uma platéia de bebedores de chopp nos quais se misturavam alguns estrangeiros. Fui nesse bar nas três noites em que fiquei e sempre puxava conversa com os outros gringos, tentando me sentir um pouco mais em casa depois de muito tempo só falando chinês.



Agora, aqui em Pequim, vou ficar mais ou menos uns 7, 10 dias e me encontrar com o Alan, assim que ele conseguir o visto para poder entrar na China e pegar o seu avião em São Paulo.
Não sei se vou conseguir publicar muito durante a viagem, mas vou tentar, prometo.

Abraços!

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O fim e o começo.


Bom, Depois de quase onze meses morando aqui em Xi'an, China, eu me preparo para ir embora. Dentro de três horas eu vou entrar num trem com destino à Shanghai, onde vou começar minha viagem pelo oriente. Devo visitar alguns lugares da costa leste do país e depois ir para o norte, para Pequim, para encontrar Alan, que vai se juntar a mim.

Estes tempos aqui serviram para muita coisa. Aprendi que os chineses são muito diferentes, apesar da sua simpatia no geral se assemelhar à brasileira. Aprendi a ter paciência, a tolerar mais as diferenças, as atitudes incompreensíveis, as pessoas chatas. Meu ônibus quase despencou no barranco cheio de neve, eu achei que o terremoto ia me levar. Aprendi a fotografar melhor. Passei muitas oras sozinho, refletindo sobre milhares de coisas. Destilei minha identidade de brasileiro pelo contraste com o diferente.

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Esta semana fui dar um olhada no zoológico de Xi'an. Abaixo, a única coisa que me interessou o suficiente para tirar uma foto. Tenho que confessar que as fotos de tubarões do Miguel Rio Branco me fizeram começar a fotografar animais do gênero "assassino".


Fiz um dia de despedidas com meus estudantes, primeiro os de português, que me levaram para o karaokê às 11 horas da manhã (óbvio que me fizeram cantar) e depois me levaram para comer um monte. Em seguida fui me encontrar com os alunos de espanhol no campus novo da universidade, onde eu dava as aulas. Eles estavam me esperando num restaurante para comer também. Acho que ficaram um pouco decepcionados quando viram que eu não poderia comer mais que um pedaço de tomate.
Esses programas são bem chineses: karaokê e restaurante. O primeiro parece ser uma moda em todo o oriente na verdade. Tem em toda esquina, geralmente um prédio de uns 4, 5 andares, como se fosse um hotel. São salas privadas de vários tamanhos, com uma televisão enorme, sofás, dois ou mais microfones, etc. Vão grupos de estudantes, colegas de trabalho, às vezes até representantes de empresas indo fazer negócios. Niguém liga se vocês canta muito bem, eles gostam da diversão. O foda comigo é que eu só podia cantar músicas em inglês, e só tem as conhecidíssimas, todas dos anos 70 e 80. Imagina os clipes que passam junto com essas músicas... uma tristeza.


A última vista da universidade.

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Agora começo uma jornada que sei que vai fechar este período com chave de ouro. Vou começar uma viagem a partir de uma outra, não a partir de casa, é uma sensação bem interessante. Você não está escapando de uma rotina nem deixando suas preocupações de lado, é uma viagem mais pura, eu diria, porque não inclui uma vontade de relaxar, de distrair. Viajo concentrado em aprender e me divertir. Cabeça aberta e dá-lhe olhar de estrangeiro.

Obrigado a todos que passaram por aqui.

Vou fazer posts da viagem a cada tanto.




Abraços

sábado, 7 de junho de 2008

Fim de temporada.




Depois do terremoto do dia 12 de Maio, a cidade de Xi'an continuou vivendo por um mês sob a sua sombra. Junto com as pessoas do resto do país, os chineses daqui tiveram todos os 40 canais de suas televisões tomados por notícias, reportagens, entrevistas, gravadas e ao vivo sobre a tragédia e suas conseqüências . Salvamentos, políticos com a mão na massa, histórias de pessoas que perderam seus filhos, pais, até a família toda às vezes, preenchiam praticamente o dia inteiro da programação. Alguns dias depois da tragédia foi decretado um luto nacional de três dias: a diversão foi proibida, canais de filmes e afins foram bloqueados, academias de ginástica fechadas (???), todos deveriam estar obrigatoriamente tristes (hã?). No primeiro dia do luto rolou uma pausa, cinco minutos de silêncio exatamente uma semana depois do terremoto, na mesmíssima hora. Eu pensei que todos estariam fazendo exatamente a mesma coisa do dia do tremor quando tivessem que se levantar e lembrar. Tocaram sirenes, os motoristas pararam seus carros e desceram a mão na buzina, muita gente saiu para a rua para se sentir num ambiente público. Eu estava mais uma vez na sala de aula com minha professora de chinês. Saímos todos para o páteo do prédio (o mesmo para onde eu corri que nem um idiota no dia do terremoto) e mostramos nosso respeito e tristeza pelas milhares de almas que foram perdidas, rolou até o dono da escola, um cara super jovem, puxando uma reza (cristã?) em chinês, todo mundo de mão dada.

Nas semanas que se seguiram ao grande terremoto, notícias de novos tremores chegavam por mensagem de texto no meu celular diariamente. Como o meu telefone não mostra os caracteres chineses, olhava no de qualquer outra pessoa por perto para saber o que diziam, todos recebiam igual. Duas noites eu fiquei com um pouco de cagaço e não consegui dormir direito. Era uma coisa inconsciente, do trauma do dia do terremoto: eu sabia que nada podia acontecer se no dia do grande tremor nenhum prédio ou casa tinha caído, por mais forte que fosse uma réplica, não tinha jeito de alguma coisa acontecer. Os chineses ficaram com mais medo, muito mais. Talvez porque a maioria deles mora em andares altos, onde os tremores balançam mais e de onde é mais difícil e perigoso descer. Talvez porque eles ficaram mais medrosos mesmo depois de ficar assistindo tanta desgraça na TV. Acontece que até semana passada tinha muita gente dormindo em barracas nas praças, jardins, pátios, pessoas em sacos de dormir em cima de um jornal na calçada, dentro de carros e em qualquer lugar que eles encontrassem que não tivesse concreto por cima.


Depois das duas primeiras noites após o terremoto, só teve uma réplica forte mesmo, no domingo retrasado. Eu estava praticando Yoga sozinho na minha sala e não entendia porque as estantes estavam batendo uma contra a outra. Na semana seguinte as mensagens de texto que chegavam do governo eram para dizer que outras réplicas menores poderiam ser sentidas mas que seriam inofensivas para a nossa região, para não se preocupar. Eles estavam com medo que as pessoas entrassem em pânico e começassem a fugir da cidade ou coisa assim. Chegou até uma um dia dizendo para não acreditar no boato de uma forte réplica numa província vizinha, que não existia nenhuma informação comprovando a previsão.

De resto, tudo anda meio na mesma. O calor cada vez mais forte, com o verão chegando, e a expectativa do fim da minha estada aqui (caralho, como passou rápido!). Antes do final do mês de Junho, eu já vou estar liberado das minhas obrigações como professor da universidade.



Minha relação com os alunos está cada vez melhor e as aulas têm ficado cada vez mais fáceis de dar, até porque eu fiquei um pouco mais experiente no quesito aula e no quesito chineses, isso além dos alunos já estarem falando mais as línguas que eu ensino, o que facilita a nossa comunicação.



Criei uma relação muito legal com meus alunos todos, eles tem uma certa mistura de curiosidade e admiração por extrangeiros, ainda mais por jovens, que fez com que rolasse muita empatia.



Eles são a minha maior janela para a cultura chinesa, aprendo muita coisa observando como se relacionam entre si, vendo o que comem, conversando com eles e tal. Apesar do entrosamento, tem coisas que eu não consigo evitar que aconteçam, mal-entendidos que no começo eu achava que iam fuder tudo, e que depois fui desencanando igual a muitas coisas aqui neste país. Eu passava uma atividade, por exemplo, e eles faziam errado, eu parava e tentava explicar de novo e eles olhavam para a minha cara como se eu fosse um E.T. Daí eu deixava eles fazerem do jeito que eles quisessem. Aos poucos fui me acostumando com essa diferença brutal de cultura e lógica de pensamento que faz com que meus alunos, até quando entendem o que eu falei, as palavras que eu disse, muitas vezes interpretam de uma maneira completamente inusitada. É uma parada meio surreal, mesmo. Eu me acostumei, mas sigo sem conseguir aceitar, preso como estou dentro das formas de pensar do ocidente.



Uma ilustração de diferença cultural curiosa: outro dia, um dos meu alunos, de 20 anos de idade, me contou a história de como começou o seu namoro. Ele disse que tinha uma amiga de quem ele gostava muito. Planejou uma investida: foi numa loja de flores, comprou 31 rosas, fez uma reserva num restaurante ocidental (considerado chique por aqui, que nem restaurante oriental no Brasil) e convidou a tal menina. Parece que no meio do jantar a dois, rolou um momento em que a garçonete chegou de surpresa com as flores. O menino disse para a sua pretendente que eram 31 para representar os dias do mês em que ele pensava nela. Pediu-a e namoro e foi atendido. Parece coisa de filme, mas aqui na China é comum.



Neste tempo no exílio conheci o projeto Couchsurfing.com. Já falei dele antes, em outros posts, mas vou dar uma refrescada na memória de vocês. É uma parada que uns gringos criaram para que viajantes possam ficar na casa de pessoas nos lugares onde forem. Geralmente quem hospeda também vai alguma hora viajar e se beneficiar. Não se paga nada para ninguém, o que vale é a experiência e a amizade. Não é obrigatório receber hóspedes para poder ficar na casa de alguém, cada um um oferece o que pode. Eu, aqui, recebi muitas pessoas durante este ano, gente de todo canto do mundo que, quando passavam pela minha casa, deixavam um pouco da sua história de mochileiros e da sua alegria de estar viajando. O último que recebi foi o Fajar, um cara de uns 30 e poucos, da Indonésia. Ele trabalha na embaixada do Canadá na capital, Jacarta. Foi muito legal porque ele me falou da história não só do seu país, como também da Malásia, Singapura, etc, e me deu uma visão geral do sudeste asiático, do qual eu não tinha nenhuma idéia.


Cada pessoa que vem expande o meu mundo um pouco mais. É como viajar sem sair d casa. Quase todo mundo que vem pra China passa por Xi'an e muitos jovens fazem parte desse projeto e me pedem para ficar aqui. Várias vezes eu recusava por não estar num humor muito bom e é foda receber alguém que você não conhece na sua (pequena) casa; se não estiver com paciência e bom humor, cabeça aberta, não é uma experiência legal. Muitas outras eu aceitei e todas foram muito legais e valeram a pena. Fiz alguns amigos e garanti lugares para ficar em minhas futuras andanças pelo mundo.



Semana passada rolou uma coisa bacana. Me encontrei com um fotógrafo brasileiro que está fazendo um livro sobre países emergentes, incluindo aí a China, e fui ajudar ele a encontrar umas imagens aqui em Xi'an. Tivemos uma professora em comum no Senac, onde ele fez pós e eu fiz o bacharelado em fotografia, a Simonetta. No seu blog, ela comentou sobre os dois porque tínhamos em comum o fato de estarmos aqui no oriente. Assim, trocamos alguns emails nas últimas semanas e nos encontramos finalmente na quinta-feira passada. Foi desse jeito que conheci o Érico, um cara bem gente fina por sinal.



Fomos para a parte leste da cidade, onde eu sabia que existe um antigo bairro operário de fábricas de tecido e roupas. Demos um rolê perto de uma termelétrica qu eu nem sabia que estava lá e depois acabamos entrando numa escola onde eu consegui fazer o porteiro deixar a gente entrar (falando chinês, vejam bem). Aproveitei para fazer umas fotos também, a criançada, de uns 6, 7, anos, pirou com os dois estrangeiros dentro da escolinha deles.



A cidade de Xi'an está construindo seu metrô. Comecaram no final do ano passado, não muito tempo depois de eu ter chegado aqui. A avenida que sai do centro e corta o sul da cidade está completamente zoada porque eles estão fazendo as escavações de cima para baixo, e não com tatu, por dentro da terra, como fazem no Brasil por exemplo. Acho que é alguma coisa a ver com o fato da cidade estar num enorme sítio arqueológico e que em cada pedaço de terra retirada pode estar uma relíquia da longa e gloriosa história chinesa. O trânsito está bem ruim para ir daqui para o centro, então, já que o campus onde eu moro fica do lado dessa avenida. Eu geralmente, quando vou para lá, pego um ônibus de dois andares onde dá para ficar sossegado na parte de cima, sentado, olhando a paisagem e sem ser incomodado por encontrões e empurrões dos chineses subindo e descendo.


Os motoristas dirigem esses monstros como se fossem motos, girando o volante que nem uns loucos, acelerando e brecando o tempo todo, isso sem falar que é tudo muito caótico nas ruas da cidade, com pessoas atravessando as avenidas sem esperar o sinal fechar, carros virando para a esquerda, bicicletas que entram na sua frente vindas do nada, um caos que só os chineses devem entender. Eu até que me acostumei rápido a andar desencanado desse tipo de coisa, do trânsito bizarro, das placas com nomes confusos, restaurantes sem guardanapo.... mas fico pensando nos suíços, nos canadenses, nos escandinavos, que devem ter um choque muito maior do que o meu quando chegam aqui pela primeira vez. Ser brasileiro tem suas vantagens, estamos mais próximos do resto do mundo, somos mais parecidos com uma maioria do que com uma minoria. Quando voltar para o Brasil, vou levar muito menos a sério os problemas da vida cotidiana, isso sim.